[GER-LP] 33.1 – Apostila

O USO DO ACENTO INDICADOR DE CRASE

Crase é palavra de origem grega e significa “mistura”, “fusão”. Nos estudos de língua portuguesa, é o nome que se dá à fusão de duas vogais idênticas. Tem particular importância a crase da preposição a com o artigo feminino a(s), com o pronome demonstrativo a(s), com o a inicial dos pronomes aquele(s), aquela(s), aquilo e com o “a” do relativo “a qual” (as quais). Em todos esses casos, a fusão das vogais idênticas é assinalada na escrita por um acento grave. O uso apropriado do acento grave, ou acento indicador de crase, depende essencialmente da compreensão desse fenômeno. Aprender a colocar o acento consiste em aprender a verificar a ocorrência simultânea de uma preposição e um artigo ou pronome.

Verificar a existência de uma preposição é, antes de mais nada, aplicar os conhecimentos de regência verbal e nominal que você acaba de obter.

Observe:

Conheço a diretora.
Refiro-me à diretora.

 

No primeiro caso, o verbo é transitivo direto (conhecer algo ou alguém), portanto não existe preposição e não pode ocorrer crase. No segundo caso, o verbo é transitivo indireto (referir-se a algo ou a alguém) e rege a preposição a, portanto a crase é possível, desde que o termo seguinte seja feminino e admita o artigo feminino a ou um dos pronomes já especificados.

Para verificar a existência de um artigo feminino ou de um pronome demonstrativo após uma preposição a, podem-se utilizar dois expedientes práticos. O primeiro deles consiste em colocar um termo masculino de mesma natureza no lugar do termo feminino a respeito do qual se tem dúvida. Se surgir a forma “ao”, ocorrerá crase antes do termo feminino.

Observe:

Conheço o diretor./ Conheço a diretora.
Refiro-me ao diretor./ Refiro-me à diretora.

O outro recurso prático é substituir o termo regente da preposição “a” por um que reja outra preposição (de, em, por). Se essas preposições não se contraírem com o artigo, ou seja se não surgirem as formas da(s), na(s) ou pela(s), não haverá crase.

Observe:

Refiro-me a você. – Gosto de você.
Penso em você. – Apaixonei-me por você.
Comecei a gritar. – Gosta de gritar.
Insiste em gritar. – Optou por gritar.

Tome muito cuidado com esses “macetes”. Não se esqueça de que é preciso olhar para os dois lados. Não basta provar que existe a preposição “a”, ou que existe o artigo “a”. É preciso provar que existem os dois.

 

Você vai ver agora alguns casos em que são comuns as dúvidas relativas ao emprego do acento indicador de crase. Note que o que vem a seguir consiste na aplicação prática dos conceitos e dos expedientes estudados.

 

A crase obviamente não ocorre diante de palavras que não podem ser precedidas de artigo feminino. É o caso:

⇒ dos substantivos masculinos:

Tenho um fogão a gás.
Não compro a prazo.
Fui a pé.
Assisti a jogos memoráveis.

 

⇒ dos verbos:

Disponho-me a colaborar.
Cheguei a insistir.
Começou a chorar.
Pôs-se a gritar.

 

⇒ da maioria dos pronomes:

Mostre a ela.
Parabéns a você.
Disse a mim.
Refiro-me a Vossa Excelencia.
Isso não interessa a ninguém.
a nenhuma pessoa aqui presente.
a qualquer um de nós.
Quero falar a todos.
a poucas pessoas.
a alguns amigos.
a essas poucas pessoas.
a qualquer pessoa.

 

Os poucos casos de pronomes que admitem artigo podem ser facilmente detectados pela aplicação dos métodos descritos há pouco:

Estou me referindo à mesma pessoa. (ao mesmo homem)
à própria Luísa. (ao próprio Luis)
Informe o preço à senhora Sílvia. (ao senhor Sílvio)

 

Como você já viu no capítulo destinado aos pronomes, antes dos possessivos, o artigo definido é optativo. Portanto, se o termo antecedente reger a preposição a, o acento grave é optativo:

Refiro-me a minha velha amiga./ Refiro-me a meu velho amigo.
Refiro-me à minha velha amiga./ Refiro-me ao meu velho amigo.

 

⇒ de palavras femininas no plural precedidas de um a:

A pesquisa não se refere a mulheres casadas.
O premio só foi concedido a cantoras estrangeiras.
É um assunto relativo a jornalistas especializadas.

Nesses casos, o “a” é preposição, e os substantivos estão sendo usados em sentido genérico. Quando são usados em sentido específico, passam a ser precedidos do artigo “as”; ocorrerá então, a crase.

Compare as frases seguintes:

O estudo não se aplica a pessoas de índole nervosa.
O estudo não se aplica às pessoas de que estávamos falando.
Você está se referindo a secretárias?
Você esta se referindo às secretárias desta empresa?

 

⇒ Com as expressões adverbiais de lugar formadas por nomes de cidades, países, estados, deve-se fazer a verificação da ocorrência da crase por meio da troca do termo regente:

Vou à Bahia. – Vim da Bahia./ Estou na Bahia.
Vou à Itália. – Vim da Itália./ Estou na Itália.
Vou a Florença. – Vim de Florença./ Estou em Florença.
Vou à deslumbrante Florença. – Vim da deslumbrante Florença./ Estou na deslumbrante Florença.

Tome cuidado! Não se esqueça de verificar os dois lados. Não basta constatar que surge da ou na antes de Itália, por exemplo. Isso não é garantia de acento indicador de crase: é garantia apenas de existe artigo antes de Itália. Para que ocorra crase, é preciso que o termo anterior peça a preposição “a”. No caso de “Visitei a Itália”, por exemplo, não há crase, já que visitar é verbo transitivo direto.

Observe com atenção o comportamento das palavras “casa” e “terra” nestas expressões:

Cheguei a casa – Venho de casa./ Estou em casa. (casa designa a residência de quem fala ou escreve)
Cheguei à casa do diretor. – Venho da casa do diretor./ Estou na casa do diretor.
A tripulação do cargueiro desceu a terra. – A tripulação do cargueiro está em terra. (terra se opõe à noção de “estar em alto mar”)
A aeromoça chegou à terra de seus pais. – A aeromoça está na casa de seus pais.

 

⇒ O acento indicador de crase é usado nas expressões adverbiais, nas locuções prepositivas e conjuntivas de que participam palavras femininas:

à tarde à chave à beira de
à noite à escuta à direita
à deriva à exceção de às claras
às avessas à força de às escondidas
às moscas à frente de à toa
à revelia à imitação de à beça
à luz à procura de à esquerda
à larga à semelhança de às vezes
às ordens à proporção que às ocultas
à proporção que às ocultas à medida que

 

⇒ Incluem-se nessas expressões as indicações de horas especificadas:

à meia noite
às duas horas
à uma hora
às três e quarenta

 

⇒ Não confunda com as indicações não especificadas:

Isso acontece a qualquer hora.
Estarei lá daqui a uma hora.

 

⇒ Merece destaque a expressão à moda de, que pode estar subentendida:

Pedimos uma pizza à moda da casa.
Atrevia-se a escrever à (moda de) Drummond.
Pedimos arroz à (moda) grega.

 

⇒ Não ocorre crase nas expressões formadas por palavras femininas repetidas:

Cara a cara
gota a gota
Face a face
Frente a frente

 

É fácil perceber por quê. Basta usar expressões formadas por palavras masculinas:

Corpo a corpo
lado a lado
passo a passo
dia a dia

 

⇒ A crase é facultativa diante dos nomes próprios femininos e após a preposição até que antecede substantivos femininos, desde que o termo antecedente reja preposição a:

Enviei as flores a Silvia. / Enviei as flores a Pedro (à Sílvia / ao Pedro)
Vou até a escola. / Vou até o colégio (à escola / ao colégio)
Fui até as últimas conseqüências./ Fui até os últimos motivos.
às últimas conseqüências. aos últimos motivos.

 

⇒ A crase não ocorrerá se o nome de pessoa for usado em situação formal, ou se tratar de personalidade pública. Nesses casos, não se usa artigo:

Envie a proposta a Sílvia de Araújo./ Envie a proposta a Sílvio de Araújo.
Fez referências elogiosas a Clarice Lispector./ Fez referências elogiosas a Machado de Assis.

 

⇒ A ocorrência da crase com os pronomes aquele(s), aquela(s) e aquilo depende apenas da verificação da presença da preposição que antecede esses pronomes:

Veja aquele monumento. – ver é verbo transitivo:
aquela praça. não há preposição
aquilo.

Refiro-me àquele jardim. – referir-se é transitivo indireto
àquela praça. e rege a preposição a
àquilo.

 

⇒ A crase com o demonstrativo a(s) é detectável pelo expediente da substituição do termo regido feminino por um termo regido masculino:

Perguntarei à que chegar primeiro./ Perguntarei ao que chegar primeiro.

Sua proposta é semelhante à dele./ Seu projeto é semelhante ao dele.

 

O mesmo expediente deve ser usado para detectar a crase com os pronomes a qual e as quais:

A professora à qual devo meu aprendizado já se aposentou./ O professor ao qual devo meu aprendizado já se aposentou.

Muitas das alunas às quais ele dedicou seus estudos estiveram presentes à homenagem de ontem./ Muitos dos alunos aos quais ele dedicou seus estudos estavam presentes à homenagem de ontem.